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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

MAIS UM DIA QUE ACABA . . .

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Mais um dia que acaba
e a cidade parece dormir,
da janela vejo a luz que bate no chão
e penso em te possuir.

Noite após noite, há já muito tempo,
saio sem saber para onde vou,
chamo por ti, na sombra das ruas,
mas só a lua sabe quem eu sou.

Lua, lua,
eu quero ver o teu brilhar,
lua, lua, lua,
Eu quero ver o teu sorrir.

Leva-me contigo,
mostra-me onde estas,
O que o pior castigo
O viver assim, sem luz nem paz,
sozinho com o peso do caminho
que se fez para trás...
Lua, eu quero ver o teu brilhar,
no luar, no luar.

Homens de chapéu e cigarros compridos
vagueiam pelas ruas com olhares cheios de nada,
mulheres meio despidas encostadas à parede
fazem-me sinais que finjo não entender.

Loucas são as noites, que passo sem dormir,
loucas são as noites.
Os bares estão fechados já não há onde beber,
este silêncio escuro não me deixa adormecer.
Loucas são as noites.

Não há saudade sem regresso, não há noites sem
madrugada,
Ouço ao longe as guitarras, nas quais vou partir,
na névoa construo a minha estrada.

Loucas são as noites, que passo sem dormir,
loucas são as noites...


pedro abrunhosa

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

COMO SE TIVESSE FECHADO OS MEUS PRÓPRIOS OLHOS . . .

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Tocou-me primeiro nos dedos, depois no braço, de seguida no peito, tirou-me a roupa toda, pôs-se em cima de mim, entrou no meu corpo suavemente, foi-se mexendo, mexendo-me por dentro, senti o rasgar da minha carne e um líquido espesso e quente escorrer-me por entre as pernas quando ouvi iniciar um grito de prazer no momento em que se derretia todo no meu corpo, passei as minhas mãos pelas costas dele tacteando em busca do intervalo entre as duas primeiras costelas, com uma mão retirei devagarinho dos meus cabelos o longo alfinete de ouro que a minha avó me oferecera no dia do meu casamento, espetei-lhe suavemente nas costas com receio de o magoar, ouvi-lhe soltar um outro grito ainda maior, provavelmente de dor, depois abraçou-me com toda a força que tinha, senti na minha mão o mesmo líquido quente que saíra do meu corpo e inundara o lençol, deixei de sentir o seu aperto e o coração batia ainda mas levemente. Tive uma vontade enorme de o ver ainda em vida. Com um gesto brusco retirei o pano preto dos meus olhos. Não consegui ver nada. Foram muitos anos de sombra. Pouco a pouco comecei a ver luzes do candelabro, levantei bem as velas, finalmente consegui ver os contornos do rosto dele, cada vez mais nítidos, ainda tinha os olhos completamente abertos como se estivesse à minha espera para os fechar. Padre Santa tinha dito que eu já tinha visto tudo. Não era verdade. Faltava-me ver os olhos dele. Depois disso não vi mais nada. Como se tivesse fechado os meus próprios olhos.

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Luís Cardoso
in: Olhos de coruja olhos de gato bravo

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

MOMENTOS, DELAS . . .

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Por costumbre
se acuesta en la cama
a esperar a su marido
que llega siempre tarde
da las buenas noches
bosteza

Ella se va ai baño
aplaca la furia
con su mano maestra
recostada en la toalla
cuando él entra y pregunta:

"Quê haces aqui?"

"Nada", responde.

Yolanda Pantín, 1954, Venezuela


É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O TONÍ DA MINHA RUA . . .

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Um destes dias, um blog de visita diária fez-me recordar a minha infância, especialmente algumas das brincadeiras de rua e alguns amigos daquele tempo, anos 70 em Ermesinde, onde eu morava.
Naquele tempo havia um conceito que hoje em dia não existe, “a minha rua”, a rua era uma propriedade, a rua era nossa, dos que lá moravam.

Jogávamos futebol de rua com outras ruas, fazíamos corridas de bicicleta com outras ruas, era a minha rua com a outra rua (curioso como hoje até no desporto se diz o meu clube contra o outro, eu prefiro continuar a utilizar a palavra “com”).
Éramos mais de 15 putos numa rua de 100 metros, daquelas com casinhas pequenas e todas iguais construídas nos fins dos anos 60.

Tínhamos também, nessa altura, o momento de “ir brincar”, ir brincar significava ir para a rua jogar à bola ou às escondidas ou fazer corridas de “sameiras” (cápsulas de garrafa de cerveja) que serviam bem de carros de corrida de formula 1 e que deslizavam em pistas feitas na terra dos passeios.

Neste blog que referi, a brincadeira citada era uma que também eu brincava, diga-se de passagem com muito prazer, o nosso grupo, o da minha rua com miúdos entre os 6 e os 9, tocava a uma campainha de uma das vivendas, naqueles tempos faziam trrriin trrriin e não havia videoporteiros. Depois do toque, fugíamos e escondíamo-nos de forma a vermos o dono da casa abrir a porta e não ver ninguém. Repetíamos esta asneirada até o dono da casa deixar de abrir a porta e depois de muita gargalhada. Aquela brincadeira era muito comum naquele tempo e divertidíssima.

Lembro-me especialmente de duas coisas, a primeira era que adorava “jogar” ao anoitecer, naquele tempo podíamos brincar na rua, não passavam carros e não havia medos. A segunda coisa que me lembro é mais mórbida, um dos nossos amigos era o Toní, o “Xicla Manca”, rapaz da minha idade que tinha tido poliomielite e tinha a perna “manca” e com aquele aparelho de ferro que existia dantes para manter a perna na vertical. Jogávamos o jogo das campainhas com ele por perto, o rapaz era a vítima, era sempre apanhado pelo dono da casa pois não conseguia correr… nós, já escondidos, ficávamos às gargalhadas a vê-lo a justificar ao dono da casa que não tinha sido ele.

O Toní era um miúdo fantástico e ainda hoje é um amigo, ele nunca se chibou, nunca contou quem tocava à campainha, naquele tempo a amizade tinha um valor que talvez já não tenha hoje.
O Toní provavelmente não lê blogues e é um grande homem.

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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A MULHER DA JANELA . . .

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A mulher da janela que fica a ver-me passar
o que será que ela está a imaginar pois todo o
dia está lá a esperar e com seu olhar vago
e distante acompanha-me num ritual
diário de sedução e dominação afeiçoando cada
vez mais o meu pobre coração que se delicia com
seus olhos de jabuticaba a mirar-me, seus
lindos cabelos negros e seus belos e fartos
seios derramados sob o peitoril parecem
chamar-me que coisa maravilhosa e daqui de baixo
poder olhar-te e com breves impulsos nesses
instantes desejar-te minha terna e doce
vigilante de meus ríspidos passos errantes ao
longo de um breve caminhar porque sempre ela
esta lá serás tu uma “anja” a guiar-me ou uma
santa que me irá abençoar linda e bela mulher
da janela que aprendi a admirar será que um dia
vais abrir tua porta para eu entrar e te poder amar....




(jabuticaba, jaboticaba ou jabuticabeira é uma árvore frutífera brasileira da família das mirtáceas)
Arcanjo Miguel

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

BEIJAS O FOGO...

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Beijas o fogo, com teus lábios ardentes
sopras murmúrios de amor insensato
o desejo te queima na alma que sentes
e abraças a dor em opressivo recato

poema: Mpereira

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DORME ENQUANTO EU VELO . . .

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Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.

A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme. dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.


Fernando Pessoa