quarta-feira, 25 de novembro de 2009

QUEM VAI À GUERRA, NUNCA SAI DA GUERRA. . .

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Ontem vi duas reportagens na televisão, uma sobre violência doméstica e outra sobre os “sem-abrigo”.

Chamou-me à atenção uma circunstância comum às duas reportagens, falou-se em ex combatentes da guerra de África.

Estima-se que 40% dos homens sem-abrigo em Portugal são ex combatentes da guerra de África.
A maioria dos homens portugueses que bate nas mulheres é de ex combatentes da guerra de África.

Em todo o mundo, em todas as guerras, estão a ser “programados” novos mortos e novos “mortos vivos”, os que voltarem às suas casas, vão continuar a guerra, pois esta não terminará nunca, nas suas cabeças e nos seus corações…

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20 comentários:

leitanita disse...

As consequencias estao lá por vezes escondidas mas estao, 35 anos depois... hum!

VCosta disse...

É um facto... sem dúvida!!!

Vício disse...

esses que eram obrigados a ir para a guerra por meio tusto e ninguém lhes dava/dá importância enquanto que os que vão para as guerras dos outros recebem boas maquias e são uns heróis...

Vani disse...

Pode-se tirar o homem da guerra, mas não a guerra do homem.. :(

Goldfish disse...

Infelizmente... Mesmo hoje em dia havendo acompanhamento psicológico para ex-combatentes e famílias (bem, pelo menos nos países civilizados - ai, que adjectivo tão apropriado para países que fazem guerra) as memórias estão lá, sem dúvida.

JP disse...

"Quem vai à guerra..." "... vão continuar a guerra, pois esta não terminará nunca, nas suas cabeças e nos seus corações..."
Infelizmente a grande maioria transportá-la-á para o seu seio familiar. Certa vez li um livro sobre a Segunda Guerra Mundial, nomeadamente sobre os suicídios... na altura o que mais me surpreendeu foram os suicídios no exército alemão... em termos de percentagem o maior número verificou-se nas forças de elite, as SS. Vá lá saber-se porquê...

Mas... e a restante violência? E os restantes sem-abrigo deve-se a quê?
Verifica-se um aumento de violência entre jovens namorados e jovens casais, casos que não encaixam neste padrão.
Tal como em Espanha onde os dados sobre a violência doméstica têm vindo a subir e a última guerra que envolveu toda a nação (ou nações) foi há 70 e muitos anos.

Uma vez mais... imagens escolhidas a dedo.
Abraço

Imperator disse...

olá!

a guerra dos militares e a guerra dos civis são duas coisas diferentes, embora muitas vezes se cruzem, vezes demais...

sempre ouvi dizer que era fácil militarizar um civil, mas era difícil civilizar um militar.


a violência doméstica no nosso país (a dos mais velhos) tem simplesmente a ver com aspectos culturais que estão ainda muito presentes na nossa sociedade.

se formos para as aldeias nota-se isso perfeitamente, as senhoras ficam em casa eles vão trabalhar para onde tiverem que ir, a função das esposas é ter a comida feita a horas, roupa lavada, casa arrumada...

este conceito é facilmente hoje encontrado entre os mais velhos, e na visão deles, as esposas são uma espécie de propriedade.

e quando a coisa não está como eles querem, lá vá chapada fora a catadupa de tareia que a seguir vem.

quem faz os estudos, muitas das vezes nem sequer saber usar o músculo do pensamento para entender a sociedade que está a analisar. para muitas das famílias, "mais velhas" o conceito de violência doméstica não existe, e foi-lhes incutido a elas que o marido ralhar por elas não cumprirem as funções delas é normal e aceitável.

os ex combatentes, a maior parte dos que são violentos, batem em qualquer pessoa, os distúrbios que têm causados pela guerra são responsáveis por isso.

a guerra colonial acabam já à 35 anos.

existem muitos casais que foram constituídos no pós guerra por pessoas que nunca lá foram.

Darem um valor tão grande ao ex combatentes como responsáveis pela violência doméstica é na minha opinião demasiado falacioso.

a violência doméstica existe porque para certas pessoas, bater é sinónimo de posse, para uns é pura doença e devem ser tratados como doentes, para outros foram assim educados.

A violência doméstica é um crime grave, todos nós temos o dever e a obrigação de intervir activamente para a fazer desaparecer.

esta é a nossa guerra, da qual entramos e só sairemos quando ela acabar, problema é que infelizmente duvide que ela acabe.

cumprimentos provocantes

Vani disse...

"para muitas das famílias, "mais velhas" o conceito de violência doméstica não existe, e foi-lhes incutido a elas que o marido ralhar por elas não cumprirem as funções delas é normal e aceitável."

é verdade, é certo. Mas tb é verdade que o "músculo do pensamento" também pode ser utilizado para questionar esses "costumes", ou não existiria qualquer evolução cultural ou social, certo?...

É que, assim, também a mutilaçao genital é uma questão social.

Vani disse...

Bater porque se foi educado a isso continua a ser doença. Senão, teremos de desculpar todos os pedófilos que se tornaram pedófilos por terem sido abusados em crianças e por lhes ter sido incutido que isso é normal...

Vani disse...

Mas, como todas as questões, não é simples :( infelizmente.

Imperator disse...

Vani, aqui não há que desculpar ninguém!

quem bate, quem viola, quem maltrata deve ser julgado e condenado pelo que faz. e deve ser reeducado, afinal um dos princípios de fundo da condenação deverá ser a ressociabilização do individuo.

o problema passa mesmo por enfiar na cabeça das pessoas que não podem bater nas outras pessoas, não podem violar, não podem fazer o quer que seja!

mas reeducar é um processo muito complexo quando do outro lado não se quer aprender.

mas atenção que o que eu disse não passa de factos, uma possível explicação do porquê de uma determinada atitude.

o comportamento de uma pessoa de 40 anos em Lisboa por muito idêntico ao comportamento de uma mesma pessoa de 40 num monte no Alentejo ou numa aldeia em trás-os-montes se juridicamente a pena a aplicar é a mesma, quase que aposto que o que vai na cabeça de cada uma destas pessoas que vive em sítios diferentes, com graus de educação e informação diferentes, dá a solução efectiva e explica em parte o porquê de determinada atitude

é claro que só analisando caso a caso, é que podemos dizer porque é que as coisas acontecem da maneira que acontecem, embora o grau de gravidade possa ser o mesmo, o factor sociais são importantes para entender a pessoa, entendendo a pessoa entende-se o motivo, por muito injustificado que seja.

por isso, por exemplo, sendo a mutilação genital para a nossa sociedade ocidental um acto extremamente cruel para com uma jovem mulher, para as culturas que as praticam, esse acto é tão aceite como para nós é aceite usar brincos.

podem as minhas palavras aparentarem indiferença, mas por muito que não concorde com um determinado acto, e pessoalmente não o aceite, tenho que o compreender inserido no contexto social em que ele é praticado.

cantinhodacasa disse...

Odeio violência e miséria.
Há pouco, e a propósito dos sem-abrigo, fui levar a minha sibrinha à escola. Temos que passar por uma túnel para peões.
Mal entrámos, a miúda abraça-me, passei para o meu lado direito.
Pela primeira vez, naquele túnel estava um vulto deitado,sobre uns cobertores, com um outro que o cobria. Via-se apenas o cabelo. Fiquei impressionada. Já tinha visto em Lisboa, mas aqui em Braga, naquele túnel que dá acesso à escola, NUNCA.
Fiquei muito sensível com o que vi.
Não ando àparte disto, mas abalou-me por ser naquele sítio onde passam muitas crianças.
Pensei:"Miséria humana, pobreza, fome.
No Natal há demasiado consumismo em coisas que depois são postas de parte, e quantas pessoas precisam de um abrigo".
E agora leio este teu post, fico por de mais triste com o mundo e que vivemos.
Obrigado por estes alertas e pelas fotos.
Penso que deveríamos aprender algo com isto.
Beijinho

Vani disse...

O mundo não é preto nem branco e existem muitos costumes nele. Mas mesmo olhando sob uma perspectiva social, não entendo uma prática nascida para abusar e maltratar seja quem for. Os bombistas suicidas tb são culturalmente aceites entre os fundamentalistas.

O mundo é cinzento, é verdade, e há que compreende-lo em contextos sociais e culturais, é verdade. Para combater coisas como a mutilação genital, que de certeza que quem a sofre preferia mil vezes encher-se de brincos.

Ninguém está a dizer que o comentário é frio ou errado ou isso :) pois não se pode expor por inteiro uma opinião apenas numa caixa de comentários :)

Estou apenas a colocar pesos no outro lado da balança :D.

catwoman disse...

Não querendo repetir o que já desvendei no meu canto, não são só as pessoas do interior, não sao só os mais velhos, não são só os ex-combatentes, são todos aqueles que de tão inseguros querem demonstrar que são alguém oprimindo e maltratando, mentindo e rebaixando, aqueles que vivendo, no meio de nós, utilizando esta mesma forma de comunicar que nós utilizamos, chegam de mansinho, a vitimizarem-se, a fazerem-se de incompreendidos, ou dando uma de bons "vivants" e depois na outra vida são piores que os mais velhos, pq tendo acesso a um outro nível cultural, são mais refinados na sua malvadez. Desculpa Lontro ter usado o teu blog, como "tempo de antena", mas apesar da luta diária e constante a mágoa e a revolta surgem sempre nestas ocasiões.
Bjs.

Girl in the Clouds disse...

A guerra é uma coisa mesmo horrível, como é possível não ter fim à vista!!E, estar sempre iminente!!

spritof disse...

Tenho as minhas dúvidas de que, hoje e em Portugal, a maioria dos perpetradores de violência doméstica sejam ex-combatentes da guerra de África. Mas não tenho dúvidas de que tenham sido a maioria há uns anos atrás.

Essa guerra terminou há cerca de 35 anos (mais coisa menos coisa), o que faz com que esses indivíduos tenham entre os 58 e os 70 anos... consoante a carreira que já tivessem.

Tive recentemente contacto com alguém próximo que está a passar por este problema... e sinceramente nem sei muito bem como lidar com isso, porque a minha vontade rebentar as fuças do energúmeno... mas ela parece... enfeitiçada pro ele e acredita firmemente na sua recuperação.

Para tentar perceber um pouco, encontrei alguns dados estatísticos na APAV, e resumidamente constatam que:

> 87,1% das vítimas são do sexo feminino, e 12,9% do sexo masculino;

> a idade mais atingida é entre os 26 e os 45 anos de idade, num total de 33,1%;

> 47,6% das vítimas são casadas, dos quais 51,6% com filhos;

> 82,9% são de origem europeia;

> 9,3% das vítimas têm o ensino superior, sendo que 57,9% não se sabe;

> 40% das vítimas têm condições financeiras relativamente estáveis;

> 32,9% das vítimas são da região de Lisboa;

> os autores de crime são em mais de 85% das situações do sexo
masculino;

> destes criminosos, a maioria pertence à faixa etária dos 26 aos 55 anos de idade num total de 40% (dos quais 28,7% entre os 26 e os 45 anos);

> sobre o ponto anterior, e mais detalhadamente:
entre os 0 e os 10 anos: 0,04%
entre os 11 e os 17 anos: 1,1%
entre os 18 e os 25 anos: 3,9%
entre os 26 e os 35 anos: 11,2%
entre os 36 e os 45 anos: 17,5%
entre os 46 e os 55 anos: 11,3%
entre os 56 e os 64 anos: 5,3%
mais de 64 anos: 4,4%
Indeterminados: 45,2%

> os restantes dados dos que praticam este crime são mais ou menos coincidentes com os das vítimas;

> 74,3% dos crimes acontecem dentro do lar, na residência comum, 10,6% na residência da vítima e 6,2% na via pública.

Estes dados são de 2008 e referem-se aos casos tratados e confirmados pela APAV que, naturalmente, não correspondem ao universo de casos reais.

Estamos a falar de milhares de casos por ano, o que é preocupante.

Estamos a falar de situações potencialmente graves, quer do foro físico que, e principalmente, do foro psicológico, com impactos sérios na sociedade em geral (não apenas das vítimas, mas de todos os que directa ou indirectamente se relacionam com as vitimas).

Estamos a falar de direitos humanos.

Estamos a falar de algo imensamente estranho que faz com que as vitimas muitas vezes se deixem permanecer, pelos mais variados motivos, neste tipo de situações... medo, insegurança, ingenuidade, falta de amor-próprio, etc. etc. etc.

Estamos a falar de algo contra o qual todos nós, nós=sociedade (e falo agora especialmente por mim), deveríamos lutar, mas com responsabilidade...

(...)

Paulo Lontro disse...

A todos,

Quer numa reportagem quer na outra se falava dos assuntos de forma completa, e profissional, o tema NÃO ERA “ex-combatentes”, FUI EU que liguei os ex-combatentes às duas reportagens.

Sendo assim, os dados que muitos de vocês deram aqui sobre quem bate ou leva ou sobre quem dorme na rua, podem estar correctos. Por exemplo, foi focado na reportagem o facto de estes homens ex-combatentes serem violentos não só para a sua família mas violentos em geral, na sociedade.

Os vossos comentários fazem pois sentido e completam-se uns aos outros.

Há no entanto um dado que está confirmado, ao contrário do que se pensa, a violência de homens sobre mulheres tem vindo a decrescer de ano para ano, e muito!

Quanto ao objectivo do post, nada muda, os ex-combatentes necessitam de maior apoio.
Se ao fim de todos estes anos ainda há estas consequências é porque algo está a falhar e isso é já bastante para que eu lance a conversa.

Só temos ainda que lamentar o facto de termos que acrescentar às “normais” vítimas das guerras, estes homens e mulheres que vão para as guerras e que depois as trazem para a sociedade e para casa, aumentando muito o número de vítimas de guerra…

Obrigado pela vossa contribuição.

:)

Valquíria Vasconcelos disse...

Esqueceste daqueles que nunca foram sequer à tropa e querem fazer de nós, mulheres, recos, numa recruta caseira... Um dia destes falo-te desse tipo de guerra. A psicológica!

Bjs

Paulo Lontro disse...

Valquíria,

Eu não me esqueci de nada!
Eu não quis que o tema do post fosse “os que batem nas mulheres”, já expliquei no comentário anterior que o post é sobre os ex-combatentes e alguns batem em mulheres, e em tudo o que mexe.

Podes falar de tudo o que quiseres mas não tem nada a ver com o Post.

;)

Maçã e Canela disse...

Muito Forte. Muito BOM.